segunda-feira, 21 de março de 2011

A Lei da Utilidade Marginal Decrescente

por Gabriel Oliva

Nada mais adequado do que, ao iniciar a discussão sobre a Escola Austríaca, começar-se pela explicação de uma das mais importantes bases para a análise econômica: a Lei da Utilidade Marginal Decrescente. O artigo começará explicando os conceitos de utilidade e utilidade marginal, passando então a enunciar a lei da utilidade marginal decrescente, exemplificando-a e finalizará rebatendo uma crítica comum (e equivocada) que é frequentemente feita à mesma.

A Utilidade e a Utilidade Marginal
Antes de enunciar e explicar a Lei da Utilidade Marginal Decrescente, é importante definir os conceitos de utilidade e utilidade marginal. A utilidade refere-se à satisfação, felicidade ou contentamento de um indivíduo. Ela é um conceito subjetivo, o que quer significa que somente uma pessoa pode determinar o que lhe dá maior ou menor utilidade: o próprio agente em questão. Quando um indivíduo subjetivamente avalia que saiu de um estado de menor para um estado de maior satisfação, dizemos que sua utilidade aumenta. Caso contrário, se o indivíduo considera que sua situação piorou, tem-se uma redução da utilidade.

 
Inexistem formas de se medir a utilidade (não há um “utilitômetro”), pois não há unidade de mensuração objetivamente determinada e eternamente fixa para a utilidade. Disso decorre que a utilidade é expressa ordinalmente, ou seja, é possível ordenar fins de acordo com a utilidade que eles garantem ao indivíduo, mas não se pode determinar exatamente o quanto um fim é preferível ao outro. Em outras palavras, entre dois bens A e B, é possível determinar se A é preferido a B, mas não o quanto A é preferido a B (tudo isso, evidentemente, dentro da perspectiva subjetiva do indivíduo). Outra conseqüência da impossibilidade de se construir um “utilitômetro” é que não se pode fazer qualquer tipo de comparação interpessoal de utilidade.

Entendido o conceito de utilidade, definiremos agora o que significa o termo utilidade marginal. A utilidade marginal é a utilidade proveniente da aquisição de uma unidade adicional de um determinado bem. Note que a utilidade marginal não é definida a partir de acréscimos na utilidade, mas sim a partir de acréscimos na quantidade de bens. Dizer o contrário serio o mesmo que dizer que a utilidade é mensurável, o que já foi negado anteriormente.

A Lei da Utilidade Marginal Decrescente
Pode-se enunciar a lei da utilidade marginal decrescente da seguinte forma: A utilidade marginal de cada unidade homogênea de um bem decresce com o aumento da oferta desse mesmo bem.

Sabe-se que não possuímos quantidades ilimitadas de bens. Em outras palavras, os meios são escassos. Dada a escassez de meios, um indivíduo deve ordenar seus fins entre os mais e os menos preferidos (os que garantem maior ou menor utilidade). Perceba que quanto maior a quantidade de meio disponível, mais fins menos valorados (que trazem menos utilidade) serão atendidos.

É necessário frisar que a lei da utilidade marginal decrescente decorre logicamente do axioma da ação humana e independe de considerações psicológicas ou comportamentais. Fatores psicológicos podem influenciar na escolha de quais serão os fins desejados pelo indivíduo, mas não alteram em nada a forma como esses fins se relacionam com os meios. Como disse Mises, no livro Ação Humana: 

“Quer uma ação provenha de uma clara deliberação, quer provenha de memórias esquecidas e desejos reprimidos que, das profundezas onde se encontram, dirigem a vontade, sua natureza não se altera. Estão agindo tanto o assassino, cujo impulso subconsciente (o id) conduz ao crime, quanto o neurótico, cujo comportamento aberrante parece sem sentido para o observador superficial; ambos, como todo mundo, procuram atingir certos objetivos. É mérito da psicanálise ter demonstrado que mesmo o comportamento de neuróticos e psicopatas tem um sentido, que eles também agem com o objetivo de alcançar fins, embora nós, que nos achamos normais e sãos, consideremos sem sentido o raciocínio que lhes determina a escolha de fins, e inadequados os meios que escolhem para atingir esses fins.”

Exemplo de aplicação da Lei
Considere que certo indivíduo, João, possua a seguinte escala de valoração:

1- Saciar a própria sede
2- Saciar a sede do seu cachorro
3- Regar as plantas

Considere que cada uma dessas ações requeira 1 copo d’água. Com o 1º copo d’água, João matará sua sede, com o 2º ele matará a sede de seu cachorro e com o 3º ele regará suas plantas. Note que, à medida que João ganha mais um copo d’água, esse copo será usado para um uso menos valorado do que o uso do copo d’água anterior. Em outras palavras, a utilidade garantida por um copo adicional decresce à medida que ele possui acesso a maior quantidade de copos, ou seja, a utilidade marginal é decrescente.

Críticas à Lei
O mau entendimento do real significado da lei da utilidade marginal decrescente pode levar à conclusão errônea de que ela seria verdadeira somente para alguns casos particulares, não tendo validade universal pleiteada pelos economistas austríacos.

No seu livro Man, Economy and State, Rothbard dá um exemplo de um caso em que muitos achariam que a lei da utilidade marginal decrescente não seria válida. Considere Joe, que tem uma esposa, uma filha, um cachorro e a seguinte escala de valoração:

1.  Alimentar sua família com bolo
2. Alimentar sua filha com ovo mexido
3. Alimentar sua esposa com ovo mexido
4. Alimentar seu cachorro com ovo mexido

Suponha que ele precise de quatro ovos para poder fazer o bolo. Com o seu primeiro ovo, ele alimentará sua filha, pois ele prefere isso a todos os outros desejos que ele pode satisfazer com um ovo. Com um segundo ovo, ele alimentará sua esposa, e com um terceiro ovo, ele alimentará seu cachorro.

Agora considere que Joe adquire um quarto ovo. É aqui então que alguém poderia ser levado a afirmar, erroneamente, que a utilidade marginal do quarto ovo seria maior do que a do terceiro, já que Joe satisfaria o fim que prefere mais. Logo, a utilidade marginal cresceria ao passar de três para quatro ovos, o que contradiria a lei da utilidade marginal decrescente.

Esse raciocínio ignora um detalhe muito importante da definição da lei da utilidade marginal decrescente: ela se aplica apenas a unidades homogêneas de oferta. E a homogeneidade das unidades é determinada pelo conjunto de fins que podem ser satisfeitos com uma unidade de um bem. O bolo não pode ser feito apenas com o quarto ovo, sem utilizar os outros três. São necessários os quatro ovos. Logo, no caso acima, a unidade relevante de análise é 1 unidade = conjunto de quatro ovos. Portanto a escala de valoração de Joe pode ser rescrita da seguinte forma:

1. Alimentar sua família com bolo
2. Alimentar sua família com ovos mexidos

Dessa forma, com 1 unidade (4 ovos), Joe escolherá alimentar sua família com bolo e, caso ele consiga mais 1 unidade, ele também alimentará sua família com ovos mexidos.

Leituras Complementares
A utilidade marginal não é nenhuma astronáutica - Frank Shostak

A lei da utilidade marginal – Ludwig von Mises (cap. 7 da parte 1 do livro Ação Humana)

7 comentários:

  1. A utilidade só pode ser medida quantitativamente em termos de número e variedade de bens consumidos.
    Assumindo uma função de utilidade Cobb-Douglas, por exemplo, temos que U=x^a.y^(1-a). Sendo x e y bens consumidos (ou y sendo todos os outros bens
    da economia que não x), então o agente auferirá maior utilidade quando consumir mais bens. Ainda assim não há uma medida de utilidade,
    que apenas pode ser medida pela sua proxy: soma dos bens consumidos.
    Vc dizer que os meios são escassos é estranho... Até porque vc não definiu o que seriam "meios". Melhor dizer recursos escassos.
    Não entendi o que vc quis dizer aqui: "mas não alteram em nada a forma como esses fins se relacionam com os meios."
    Os fins se relacionam com os meios de acordo com a especificação funcional da utilidade, ou seja, é algo subjetivo ao indivíduo.

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  2. Olá André,

    Seu comentário é bastante pertinente.

    Você tem razão em relação aos "meios". Melhor seria dizer recursos.

    O que eu quis dizer quando escrevi em "mas não alteram em nada a forma como esses fins se relacionam com os meios." foi o seguinte: O indivíuduo deve acreditar em alguma relação causal entre os meios empregados e os fins que ele pretende atingir. O fato dessa relação causal ser irracional e/ou falsa, ou o fato dos fins serem considerados como loucura por terceiros não alteram em nada a estrutura lógica da ação. Os "loucos" também visam a fins e empregam meios que eles julgam serem adequados para atingí-los. Em outras palavras, todas as conclusões obtidas são válidas independentemente de considerações psicológicas.

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  3. Essa sua última ponderação se assemelha bastante com o que a economia novo clássica considera como racional (assim como creio que Mises também): tudo. Ou seja, tudo que um ser humano faz é racional, partindo do pressuposto de que, se um agiu, é porque pensava no que é melhor para si, mesmo que seja algo bizarro.
    Aliás, teria sido bom vc relacionar a inclinação negativa da curva de demanda com a lei da utilidade marginal decrescente, hehe.

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  4. André,

    Mises diferencia o comportamento propositado (ação humana) do comportamento inconsciente, ou seja "os reflexos e as respostas involuntárias das células e nervos do corpo aos estímulos". Logo, para ele, somente o primeiro tipo de comportamento (o propositado) é racional. Nesse sentido, ação racional seria uma tautologia.

    Se você quiser ler mais sobre esse ponto, eu indico o 1º capítulo de Ação Humana, denominado "O Agente Homem". Esse capítulo tem pouco mais de vinte páginas, mas a leitura vale cada segundo gasto.

    Quanto à inclinação negativa da curva de demanda, fique à vontade para calcular a derivada, hehehe.

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  5. Este comentário foi removido pelo autor.

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  6. Não é necessário o cálculo da derivada para relacionar a utilidade marginal decrescente à inclinação negativa da curva demanda, Gabriel.

    Tal relação pode ser efetiva a partir do ponto em que se imagina a curva de demanda de inclinação negativa.

    Ter inclinação negativa equivale a dizer que os pontos iniciais da curva (mais à esquerda da curva) terão maior inclinação. Em contrapartida, os pontos adiante (mais à direita da curva) terão inclinação bastante inferiores.

    A maior inclinação - a que é notada no início do consumo - indica que grande é a utilidade do produto consumido e que, mesmo nas aquisições seguintes, ainda terão considerável utilidade.

    A menor inclinação - a notada após um numero "x" de quantidade consumida - indica que a utilidade marginal, ou seja, a utilidade acrescentada pelo ultimo produto à utilidade total, caminha à tornar-se cada vez mais desprezível, uma vez que, à medida que foi consumido muito do mesmo produto, pouco prazer contemplará o consumidor pelas ultimas unidades consumidas.

    Por essa variação decrescente da utilidade do produto, entende-se que, conforme o consumidor perde o prazer pelo consumo do produto em questão, menor será a valorização atribuída ao mesmo e sua seguinte aquisição, e por isso, a demanda, pouco a pouco, decaíra e sua curva representativa terá inclinação negativa.

    Esta inclinação representa que, pela indisposição do consumidor de pagar o mesmo preço que ele pagaria pelo produto quando este tinha enorme utilidade agora, que a utilidade deste produto é muito menor, o consumidor só continuará consumindo mais do mesmo produto se o seu preço for reduzido, agora que não está mais disposto a pagar tanto por um produto que pouco lhe proporciona prazer.


    Bárbara Tavares

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  7. E como fica o fato de o último biscoito do pacote ser mais gostoso que o penúltimo?

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