sábado, 18 de agosto de 2012

Praxeologia na América*

por Gabriel Oliva

Estive nos Estados Unidos entre 22 de julho e 5 de agosto de 2012. E não fui com o objetivo de visitar a Estátua da Liberdade ou de conhecer pessoalmente o Mickey. Fui fazer algo bem mais divertido: participar do Mises University e do Advanced Austrian Economics Seminar, os dois melhores seminários de verão sobre a Escola Austríaca do mundo.
Escrevo esse texto com duas finalidades. Primeiramente, explicarei como eu consegui participar desses seminários a um baixíssimo custo e como você que me lê pode fazer o mesmo. Depois, contarei um pouco da experiência única que foi participar desses seminários.

Como consegui participar dos seminários

                Participar do Mises University, promovido pelo Mises Institute (MI), e do Advanced Austrian Economics Seminar, organizado pela Foundation for Economic Education (FEE), era uma grande aspiração minha há algum tempo. O elevado custo de uma viagem de ida e volta para os EUA, no entanto, inviabilizava a concretização dessa aspiração utilizando recursos de meu próprio orçamento.
                Mas nem tudo estava perdido. Descobri a existência do Prêmio Donald Stewart Jr (DSJ), uma competição anual de artigos organizada pelo Instituto Liberal (IL) Os autores dos três melhores artigos ganhariam passagens de ida e volta para os EUA, a inscrição num seminário de verão (que poderia ser o Cato University ou o Advanced Austrian Economics Seminar da FEE) e uma ajuda de que variaria de acordo com a colocação do artigo. Logo percebi que essa era uma oportunidade que eu não poderia perder de modo algum.
Fazendo uma rápida pesquisa, tive uma ótima surpresa: descobri que o Mises University seria na semana exatamente anterior ao Advanced Austrian Econonomics Seminar da FEE. Um plano veio naturalmente à minha mente: eu concorreria no Prêmio DSJ e, paralelamente, me inscreveria no Mises University. Caso tudo desse certo, ou seja, caso eu ficasse entre os três primeiros colocados no Prêmio DSJ e fosse selecionado para o Mises University, eu poderia ir aos dois seminários sem gastar quase nada.
A inscrição no Mises University é bastante simples. Você só precisa preencher seus dados pessoais e responder a algumas perguntas (como, por exemplo, qual o motivo pelo qual você quer participar no seminário, quais livros mais te influenciaram, etc.). Uma carta de recomendação acadêmica também é necessária. No meu caso, pedi ao professor Ubiratan Iorio (diretor acadêmico do Instituto Mises Brasil) para assinar a carta, pedido este que foi generosamente atendido pelo mesmo.
Nos anos anteriores, o prêmio DSJ consistia na competição de ensaios sobre  um tema previamente escolhido  para o ano em questão. Em 2012, o IL resolveu inovar: haveria um tema diferente por semana e os concorrentes deveriam enviar textos relativamente curtos (não mais do que 4500 caracteres com espaço), os quais seriam avaliados e publicados num blog mantido pelo instituto. Enviei três textos, dos quais dois foram aceitos.
O resultado disso tudo não poderia ter sido melhor: fui aceito na Mises University e ganhei em 1º lugar no Prêmio DSJ.
A minha dica para quem também quer ir nesses seminários e não possui o dinheiro necessário, é muito simples: repita os passos que eu fiz! Por alguma razão que não consigo entender, o Prêmio DSJ costuma ter relativamente pouca participação. Nesse ano, só nove textos foram aceitos, ou seja, apenas esses nove efetivamente disputaram o prêmio. Entre as pessoas que eu conheço, há várias com pleno potencial de escrever um excelente texto e, consequentemente, vencer o Prêmio DSJ. Devem existir muitas outras pessoas assim espalhadas pelo Brasil. Fica, então, a dica para os próximos anos: participem do Prêmio DSJ!

A experiência nos seminários

Como prometi no início desse texto, relatarei um pouco da minha experiência no Mises University e no Advanced Austrian Economics Seminar. Dado que é impossível resumir duas semanas de intensa aprendizagem em poucas linhas, escreverei somente sobre as partes que foram mais marcantes para mim.

Mises University 2012

                Cheguei em Auburn, Alabama, no dia 22 de julho e estava bastante cansado pois não consegui dormir nada durante a longa viagem que compunha os trechos São Paulo-Miami, Miami-Atlanta e Atlanta-Auburn. O Mises U começou na noite do mesmo dia com a palestra de abertura do historiador econômico Robert Higgs. Embora extremamente cansado, mal pisquei durante a palestra, cujo título era Warfare, Welfare, and the State. Nela, Higgs tratou de como o Estado, aproveitando-se do sentimento de medo das pessoas, cresce durante momentos de crise e de como, passado o período de crise, ele pode encolher, mas nunca retorna ao seu tamanho pré-crise.
                Na segunda e terça-feira, houve palestras que giraram em torno de temas básicos como o nascimento da Escola Austríaca, valor subjetivo e os preços de mercado, moeda, cálculo econômico e socialismo, etc. Para quem já tem alguma familiaridade com a Economia Austríaca, não há nada de muito novo. Mas as palestras, em sua maioria absoluta muito didáticas, servem para rever e fixar os conhecimentos que você já tinha. De quarta-feira a sábado, na maioria das vezes era possível escolher entre duas palestras que ocorriam simultaneamente. Esse é um aspecto bem positivo por permitir que os participantes foquem nos temas que possuem maior interesse, embora, no meu caso, a vontade era quase sempre de ir a ambas as palestras.
Destacarei agora algumas palestras e professores que eu mais gostei. Começo pelas palestras do Roger Garrison, cujos temas foram Teoria Austríaca do Capital, Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos, Hayek e Keynes: Cara a Cara, e Hayek e Friedman: Cara a Cara. Escolhi assistir a todas elas pois essas valem muito a pena. As apresentações de PowerPoint do Garrison são simplesmente inigualáveis (veja um exemplo nesse link). Nelas ele consegue esquematizar graficamente temas inerentemente complexos de forma absurdamente simples e didática. Resumidamente, Garrison tratou de como as diferentes concepções de capital de Böhm-Bawerk/Hayek e Clark/Knight se refletiram nas interpretações divergentes dos ciclos econômicos feitas por Hayek, Friedman (fortemente influenciado por Knight) e Keynes (o qual não tinha uma teoria do capital).
Peter Klein deu palestras sobre A Produção e a Firma, Incerteza e Empreendedorismo, e A Microeconomia dos Bancos Centrais. Ele é um excelente orador. Ao longo de suas palestras, Klein pôde explicar detalhadamente o conceito misesiano de empreendedor (que é o agente homem visto pelo aspecto da incerteza inerente em toda a ação), como essa perspectiva nos ajuda a compreender o funcionamento das firmas, e em que seu tratamento do empreendedorismo difere daquele feito por autores como Kirzner e Schumpeter.
Na palestra As Visões Contrastantes sobre a Grande Depressão, Robert Murphy explicou quais as diferenças das interpretações da Crise de 29 feitas por Friedman, Krugman, Rothbard, Higgs e outros. David Gordon, por sua vez, falou sobre A Praxeologia: O Método da Economia, Apriorismo e Positivismo nas Ciências Sociais, e sobre Teoria e História, explicando, em todas elas, as implicações da metodologia apriorística defendida por Mises. Roderick Long, o outro palestrante filósofo, apresentou as diferenças entre as metodologias de Friedman e Mises e a relação delas com os conceitos de abstração precisa e abstração não precisa. Houve muitas outras palestras excelentes dadas por Salerno, Herbener, Hülsmann, Bagus, DiLorenzo, Block, Engelhardt, Terrell, Higgs, Thornton e North.
No Mises University é organizada uma prova opcional que testa os conhecimentos dos participantes, o Mündliche Prüfung. Essa prova é dividida em três etapas. Na primeira, há um exame escrito, com vinte questões de estilo múltipla escolha. Os que melhor pontuarem nessa prova passam para a segunda fase, que é constituída por uma prova oral aplicada por três diferentes bancas compostas por quatro professores do Instituto. Os dois participantes de melhor desempenho de cada banca procedem para a terceira e última fase da prova, que consiste em mais uma rodada de prova oral, dessa vez aplicada por todo o corpo docente presente. O 1º colocado na prova é premiado com US$3 mil, o 2º com US$1 mil e o 3º com US$500. Os aprovados na 2ª fase da prova recebem um certificado especial. Além disso, os estudantes que se destacam ao longo da prova ganham um certificado de aprovação com honras.
Eu resolvi participar da prova, mesmo não tendo grandes esperanças de ficar entre os primeiros colocados. Afinal, eu tinha conhecido muita gente extremamente inteligente durante a semana, e ainda havia a concorrência dos fellows do Mises Institute, que estavam estudando e recebendo capacitação no instituto durante todo o verão. 79 pessoas participaram da fase escrita da prova, das quais 25  passaram para a 2ª fase, sendo um deles eu. Os avaliadores da minha banca da 2ª fase da prova foram Salerno, Gordon, Engelhardt e Terrell. Infelizmente, não fui um dos dois escolhidos dessa banca para a última fase da prova. Fiquei, porém, bastante satisfeito na cerimônia de premiação quando soube que tinha sido aprovado com honras no exame. Dos 25 participantes da 2ª fase da prova, 17 foram aprovados, sendo que oito dentre esses 17 foram aprovados com honras. Fiquei muito feliz com o resultado que consegui, principalmente tendo em vista que cinco dos oito que foram aprovados com honras eram fellows do Mises Institute.

Advanced Austrian Economics Seminar

2012 foi o último ano em que o Advanced Austrian Economics Seminar (AAES) foi realizado em Irvington, na histórica sede da FEE. O evento foi iniciado na segunda-feira com uma palestra do Peter Boettke sobre A Economia Austríaca como um Programa de Pesquisa Progressivo em Economia Política e Economia. Nele, Boettke mostrou como tendências recentes na economia moderna se apresentam como oportunidades de desenvolvimento de temas austríacos. Foram enfatizados os trabalhos de vencedores do Nobel como Hayek (1974), Buchanan (1986), Coase (1991), Smith (2002) e Ostrom (2008), além de outros autores proeminentes como Shleifer, Levitt, List e Acemoglu. Dentro desse contexto, os austríacos podem buscar inserção no meio acadêmico sem abrir mão de suas posições metodológicas.
O destaque do AAES, no entanto, foi sem dúvida o octogenário Israel Kirzner, aluno direto de Ludwig von Mises no seminário que ele mantinha na New York University. Em sua primeira palestra, Kirzner falou sobre A História da Economia Austríaca, desde sua fundação por Menger, passando por um período de grande sucesso no meio acadêmico (época da entre-guerras), outro de isolamento em relação ao mainstream, até chegar ao período atual de renascimento, iniciado com o Prêmio Nobel de 1974, concedido a Hayek. Embora já esteja em idade avançada, Kirzner mantém um entusiasmo impressionante e tem uma capacidade ímpar de instigar seus interlocutores.
Em sua segunda palestra, Kirzner falou sobre O Empreendedorismo e o Processo de Mercado, tema no qual ele é uma grande autoridade. Todos já ouviram o bordão “não existe almoço grátis”. O problema é que esse bordão está errado. O mundo está cheio de deliciosos almoços grátis, esperando para serem capturados. O que permite a existência de almoços grátis é a ignorância plena, ou seja, quando você não sabe aquilo que você não sabe. Supor que os preços incorporam os “custos de informação” é supor que você sabe aquilo que você não sabe. Sempre que há ignorância plena, há uma oportunidade de lucro puro, ou seja, de obter algo a custo de nada, de abocanhar um delicioso almoço grátis. Dentro dessa perspectiva, a competição é compreendida como um processo de descoberta, no qual a ignorância vai aos poucos sendo reduzida com a ação de empreendedores visando o lucro puro.
Steven Horwitz falou sobre Os Custos da Inflação, mostrando a pobreza da abordagem padrão, a qual leva em conta apenas os custos de transação incorridos na substituição de saldos monetários e os custos de menu (custos de mudança de preços). A nova moeda proveniente da expansão monetária sempre entra a partir de um ponto específico da economia. Logo, ela afeta os preços relativos, minando o cálculo econômico e o processo de coordenação do mercado. Dentro de uma perspectiva de Instituições Comparadas, também, temos que, empiricamente, países com inflação persistentemente maiores apresentam menores taxas de crescimento econômico. E esses dados ainda subestimam os danos causados no bem estar pela inflação, pois parte considerável do PIB de um país inflacionário é gasta em pessoal e material para lidar com a inflação, decisão plenamente racional dado o contexto inflacionário, mas que se revela um desperdício quando se compara o ambiente institucional inflacionário com o não inflacionário.
Peter Lesson palestrou sobre O Gancho Invisível: A Economia Escondida dos Piratas, falando sobre como os piratas comumente se organizavam através de uma forma peculiar de democracia constitucional com divisão de poderes. Mostrou-se que coisas que frequentemente são consideradas por historiadores como meras extravagâncias dos piratas como, por exemplo, a utilização de bandeiras com desenhos de caveira e o empenho em formar reputação de cruéis, eram na verdade estratégias para a solução de problemas econômicos. Houve, ainda, outras palestras excelentes proferidas por White, Boettke, Horwitz, Garrison, Leeson, Coyne e Williamsom.

Conclusão

Espero ter resumido satisfatoriamente como consegui participar do Mises University e do Advanced Austrian Economics Seminar e como foi minha experiência nesses dois eventos. Se você que me lê quiser saber algo mais sobre os dois seminários e sobre como participar dos mesmos, podem me contatar através do meu e-mail: gabrieloliva@gmail.com.
Concluo pedindo que aqueles que estiveram comigo nesses seminários não me crucifiquem por eu não ter escrito sobre muitas partes de grande relevância dos dois eventos. Eu tenho ciência disso. O problema é que o aprendizado dessas duas semanas é de uma magnitude que não cabe em poucas linhas, mas é algo para a vida toda.


*Texto originalmente publicado em formato de série no site dos Estudantes Pela Liberdade - www.estudantespelaliberdade.com.br

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